Por Roberta Nobre
Como apenas 11% atuam em compras públicas, estes resultados devem ser tratados como um recorte específico.
Embora a amostra analisada seja pequena, ela é suficiente para indicar tendências iniciais e apontar pontos de atenção. Os achados devem ser lidos como evidências exploratórias (não generalizáveis), úteis para orientar próximas análises e priorizar melhorias de curto prazo.
A leitura das respostas do relatório de Compras Públicas aponta uma direção clara para 2026: compras públicas tendem a deixar de ser vistas apenas como função transacional e passam a se consolidar como uma alavanca de governança, continuidade operacional e geração de valor público. As compras públicas deixar de ser um “processo-meio” para se tronarem alavanca estratégica de resiliência, inovação e sustentabilidade nas cadeias de suprimentos do Estado.
No material, governança, integridade e compliance regulatório aparecem como a dimensão de maior atenção estratégica; ao mesmo tempo, o papel mais relevante atribuído à área é o de alavanca de eficiência e racionalização do gasto. Em paralelo, a automação e a IA são percebidas menos como ruptura e mais como meios para elevar eficiência operacional, rastreabilidade e controle. A mesma lógica reaparece nas demais respostas: reduzir risco de descontinuidade de fornecedores críticos, equilibrar preço com gestão de riscos e fortalecer mecanismos de governança foram os vetores mais recorrentes da pesquisa.
Esse conjunto de respostas revela uma maturidade importante.
Em vez de apostar em uma visão simplista de “comprar mais barato”, os participantes parecem reconhecer que, em ambientes públicos e estatais, desempenho sustentável depende da combinação entre economicidade, integridade, previsibilidade e capacidade de execução.
Essa leitura é coerente com a Lei nº 14.133/2021, que estruturou a contratação pública em bases mais orientadas a planejamento, gestão de riscos, governança e desenvolvimento nacional sustentável, e com a Lei nº 13.303/2016, que exige das estatais práticas compatíveis com eficiência, transparência e gestão responsável.
O sinal mais interessante para o futuro é que a pesquisa não trata compras públicas como um tema isolado da cadeia de suprimentos.
Em 2026, o grande desafio não deverá ser apenas cumprir rito processual, mas assegurar abastecimento, competitividade e capacidade de resposta em cadeias cada vez mais pressionadas por volatilidade geopolítica, concentração de fornecedores, exigências ESG e maior fiscalização institucional.
Organizações públicas que não integrarem compras, gestão contratual e inteligência de suprimentos tenderão a reagir tarde aos riscos - e pagar mais por isso, seja em custo, prazo ou perda de valor público.
Outro ponto central é o papel da tecnologia. O relatório sugere que automação, dados e analytics já são vistos como instrumentos relevantes, mas ainda subordinados ao arcabouço regulatório e aos mecanismos de controle.
Esse é um diagnóstico realista.
Os estudos atuais mostram que transformação digital em compras públicas gera mais valor quando conecta o ciclo completo da contratação, melhora a qualidade dos dados e apoia decisões sobre risco, desempenho e mercado fornecedor; porém, os maiores entraves continuam sendo governança fragmentada, infraestrutura legada e lacunas de capacitação.
Em outras palavras, IA sem processo, dado confiável e competência institucional tende a automatizar gargalos existentes em vez de resolvê-los.
Por isso, a principal mensagem prospectiva do bloco de Compras Públicas é a seguinte: 2026 exigirá uma área menos burocrática e mais orquestradora da cadeia de suprimentos pública.
Isso significa fortalecer planejamento anual e por categorias, segmentar criticidade de fornecedores, ampliar monitoramento de desempenho contratual, usar dados para antecipar falhas de abastecimento e profissionalizar equipes para operar num ambiente em que compliance e agilidade precisam conviver.
A boa notícia é que a própria pesquisa indica que essa transição já começou. O desafio agora é transformar consenso conceitual em capacidade operacional consistente, com regras claras, dados confiáveis, processos integrados e liderança capaz de equilibrar controle, competição e continuidade.
Esse artigo é parte do ebook da Pesquisa de CPO & CSCO 2026, e você pode ver na íntegra no link.
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