Sumário
- A mesa que o gestor de viagens sempre quis
- De resolvedor de embarque a arquiteto de estratégia
- O que os dados de 2026 confirmam sobre essa mudança
- O que a IA pode fazer, e o que só o humano entrega
- A conta que acompanha o protagonismo
- O mercado que cresce enquanto o cargo se complica
- O que muda quando esse profissional para de ser operacional
A mesa que o gestor de viagens sempre quis
Há um pedido recorrente que sobe dos departamentos de travel management nas empresas brasileiras há pelo menos uma década: ser levado a sério como função estratégica, não apenas como área de suporte que resolve embarque e negocia diária de hotel. Em 2026, esse pedido foi atendido — só que com um preço que ninguém antecipou.
O gestor de viagens corporativas ganhou protagonismo. O mercado cresceu, as responsabilidades se expandiram, e a liderança finalmente passou a ouvir o que esse profissional tem a dizer sobre risco, custo e cultura organizacional. O problema é que o cenário que entregou esse reconhecimento é também o mais complexo dos últimos anos: instabilidade geopolítica, confiança do setor em queda, pressão de compliance crescente e uma base de viajantes que exige mais do que a política escrita consegue oferecer.
O assento à mesa chegou. A conta veio junto.
De resolvedor de embarque a arquiteto de estratégia
Quem acompanha o travel management de perto sabe que a mudança de posicionamento da função não é de agora, mas 2026 acelerou a transição de um jeito que não tem como ignorar. As gestoras ouvidas pelo Anuário PANROTAS de Viagens Corporativas e Eventos 2026¹ descrevem em termos precisos o que mudou.
Michele Moraes, da Hypera, resume o movimento: "O que mudou foi o tipo de autonomia. Deixei de ter uma visão mais focada dentro da minha área e passei a compartilhar melhor os dados do departamento de gestão para outras áreas que tomam decisão. Hoje, é menos feeling e mais o histórico."
Viviane Parrini de Moraes, gestora de Viagens da Arcos Dourados, vai além: "O papel do gestor hoje é arquitetar a estratégia de viagens com investimento, atrelando também receita, cultura e inovação. Por isso, vejo grande necessidade de trazer ROI tanto para as viagens corporativas quanto para as de eventos."
Não é mais sobre ter o menor valor na passagem. É sobre saber o que o spend de viagens representa para o crescimento da empresa, quais rotas suportam quais projetos, o que o volume de deslocamentos revela sobre o ritmo operacional do negócio, e como a política de viagem impacta a retenção de quem viaja com frequência.
O que os dados de 2026 confirmam sobre essa mudança
A percepção das gestoras encontra respaldo nos números. A GBTA apurou, em pesquisa de 2026², que sete em cada dez compradores de viagem corporativa (70%) reconhecem que a função de gestão de viagens se torna mais importante justamente em períodos de disrupção, com responsabilidades cada vez mais próximas da liderança e da gestão de risco da empresa.
No mesmo período, a associação registrou uma queda expressiva na confiança do setor: o otimismo de gestores de viagem caiu de 59% para 41% entre janeiro e abril de 2026, enquanto o pessimismo quase triplicou. Mais viagens acontecendo, mas com mais complexidade operacional, custo percebido mais alto e decisões mais arriscadas a tomar.
É exatamente nesse cenário que o papel estratégico do gestor de viagens se consolida — não por mérito isolado da categoria, mas porque a empresa simplesmente não pode se dar ao luxo de deixar esse processo no piloto automático.
O que a IA pode fazer — e o que só o humano entrega
Uma das perguntas mais frequentes sobre travel management em 2026 é se a automação e a inteligência artificial estão tornando a função dispensável. A resposta das gestoras ouvidas pelo Anuário PANROTAS¹ é uniforme e direta: não.
Evelyn Haddad, secretária executiva da HT Micron que gerencia viagens de estrangeiros e C-Level, foi objetiva: "A inteligência artificial não acabará com nossa profissão. É preciso um olhar humano para analisar as próprias relações humanas, como de fornecedores e parceiros."
O ponto mais preciso que ela levanta não é sobre volume de trabalho ou eficiência de processo. É sobre o momento em que a tecnologia falha, ou simplesmente não é suficiente. "Em caso de problemas, de overbooking, algo que o viajante não se sinta amparado, é essencial a pessoa ter um meio de contato para falar com um humano. Para se sentir acolhida. É sobre dar conforto e trazer segurança quando o cliente interno se sente desamparado."
A automação faz bem o trabalho de rotina. Reserva dentro da política, alertas de preço, relatórios de spend. O que ela não entrega é julgamento contextual — saber quando a regra precisa ser dobrada para que a pessoa do outro lado não seja prejudicada por algo que a política não previu. Esse julgamento é o que distingue um gestor de viagens experiente de um software de reserva bem configurado.
A conta que acompanha o protagonismo
Se a função ganhou visibilidade estratégica, ela também ganhou uma lista de atribuições que seria impensável há cinco anos. Viviane, da Arcos Dourados, cita o quanto o duty of care se transformou: "Hoje é fundamental ter uma padronização de avaliação de riscos pré-viagem, monitoramento em trânsito e resposta a incidente pós-viagem."
A isso se somam saúde mental do viajante, bleisure, critérios ESG, governança de dados, integração com RH e finanças, e ainda a gestão de uma base de fornecedores que precisa ser curada com critério. Porque, como Viviane descreve, a escolha de parceiro de viagem não é intuitiva — é analítica. "Tenho por hábito olhar meu BI, entender se tenho volume para a cidade em questão para saber se haverá demanda para o hotel que estamos em negociação. Seria improdutivo para ambos os lados caso não haja esse volume."
O perfil exigido agora cruza habilidades que raramente estão no mesmo currículo: analítica de dados, relacionamento com fornecedor, sensibilidade cultural, gestão de risco, comunicação executiva, e capacidade de defender gasto de viagem em reunião de CFO sem perder o fio da experiência do viajante.
O mercado que cresce enquanto o cargo se complica
No Brasil, o contexto de crescimento não alivia a pressão — ele a amplifica. Com R$ 7,18 bilhões movimentados pelas TMCs associadas à Abracorp só no primeiro semestre de 2026³ e projeção de R$ 15 bilhões para o ano completo, o spend de viagens corporativas representa um volume que qualquer área de compras levaria a sério. Só que historicamente ele ficou em segundo plano.
O gestor de viagens que entra em 2026 com esse número na mão e sabe apresentar o que aquele gasto representa em termos de receita suportada, risco gerenciado e retenção de talentos tem um argumento novo. Não é mais um pleito por reconhecimento — é uma conta objetiva que a liderança não pode ignorar.
O que muda quando esse profissional para de ser operacional
O que as gestoras descrevem, e o que os dados confirmam, não é uma mudança de título ou de organograma. É uma mudança de como o profissional de travel management se vê dentro da empresa — e de como a empresa passa a vê-lo.
Michele Moraes resume bem: "O que antigamente era regular uma viagem ou ter o menor valor, agora é ser mais estratégico, mais analítico, usar os dados disponíveis como bússola transversal."
Quando o gestor de viagens para de ser a pessoa que resolve o embarque e passa a ser quem lê o BI antes de qualquer negociação, quem apresenta ROI de eventos para o board, quem faz a ponte entre política de viagem e saúde do viajante, o processo muda de caráter. Deixa de ser suporte e passa a ser parte da conversa sobre como a empresa funciona quando precisa se mover.
O assento à mesa que a categoria buscava por anos chegou. O que 2026 está testando é se quem senta nele está preparado para a conversa que vem depois.
Referências
- Beatrice Teizen. Além do embarque: qual o papel estratégico do gestor de viagens em 2026? Anuário PANROTAS de Viagens Corporativas e Eventos 2026, fevereiro de 2026. Disponível em: https://www.panrotas.com.br/viagens-corporativas/gestao-de-viagens/2026/02/alem-do-embarque-qual-o-papel-estrategico-do-gestor-de-viagens-em-2026_226019.html
- Global Business Travel Association (GBTA). Global Business Travel Continues but Confidence Drops Sharply as Conflict, Costs and Complexity Reshape the 2026 Outlook, pesquisa de abril de 2026. Disponível em: https://gbta.org/global-business-travel-continues-but-confidence-drops-sharply-as-conflict-costs-and-complexity-reshape-the-2026-outlook/
- Abracorp, dados do 1º semestre de 2026, via Panrotas. TMCs associadas à Abracorp faturam mais de R$ 7 bilhões no 1° semestre (2026). Disponível em: https://www.panrotas.com.br/viagens-corporativas/pesquisas-e-estatisticas/2026/07/tmcs-associadas-a-abracorp-faturam-mais-de-r-7-bilhoes-no-primeiro-semestre_230443.html
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