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Compras indiretas: por que a viagem corporativa segue em segundo plano na governança de gastos

Resumo: Compras indiretas concentram quase a metade do orçamento das empresas, mas raramente recebem o mesmo nível de acompanhamento das compras diretas. A viagem corporativa mostra bem esse ponto cego, e o custo de ignorá-lo aparece na economia, na governança e na experiência de quem viaja.

Sumário

  1. O ponto cego que pesa quase a metade do orçamento
  2. Por que a viagem corporativa é o retrato mais claro desse problema
  3. O que os números do Brasil mostram sobre esse crescimento sem controle
  4. O preço de tratar o indireto como secundário
  5. Da vigilância pontual à governança contínua
  6. A pergunta que fica para o próximo ciclo de orçamento

Introdução

Compras indiretas raramente ganham manchete dentro de uma empresa. Elas não aparecem na linha de produção, não entram na margem do produto vendido, e por isso acabam tratadas como item de segunda categoria dentro do orçamento. O problema é que essa categoria de spend, que inclui viagem, tecnologia, marketing e serviços profissionais, já representa perto da metade do gasto total das organizações. É justamente na distância entre o que a empresa gasta e o que ela de fato acompanha que mora o risco.

O ponto cego que pesa quase a metade do orçamento

Um levantamento da consultoria Efficio, publicado em 2026 e destacado pela CPOstrategy¹, mostra a dimensão desse ponto cego. Entre CPOs e CFOs entrevistados, 85% afirmam que mais de um quarto das compras indiretas de suas empresas não tem qualquer tipo de acompanhamento financeiro. Menos de um em cada cinco executivos diz ter confiança plena no retrato real desse gasto.

Não ajuda o fato de que a atenção do CPO está, majoritariamente, em outro lugar. O Global Chief Procurement Officer Survey da Deloitte, de 2025², mostra que 88% dos executivos de compras colocam análise de dados no topo da agenda de tecnologia, enquanto quase 40% citam lacunas de liderança e de competência como principal obstáculo à execução. Compras indiretas, sem dono claro e sem urgência aparente, dificilmente competem por essa atenção escassa.

O motivo é estrutural. Compras diretas têm dono claro, ligação direta com receita e processo de aprovação estabelecido há décadas. Compras indiretas nascem espalhadas entre times, sem responsável único, e ficam fora do radar até que o volume acumulado vire um problema visível demais para ignorar.

Não é um problema teórico. O levantamento da Efficio aponta que 93% dos líderes seniores identificam o chamado gasto "maverick", fora do processo de compras acordado, como a principal causa de perda de valor nessa categoria. Software e TI aparecem como a área de maior risco de vazamento de custo, citada por 81% dos entrevistados.

Por que a viagem corporativa é o retrato mais claro desse problema

Viagem corporativa carrega quase todas as características que tornam uma categoria indireta difícil de controlar. A urgência da reserva de última hora, as exceções de política aprovadas informalmente e a aprovação distribuída entre gestores diferentes criam o tipo de fragmentação que a Efficio descreve para o indireto como um todo.

A consequência é um paradoxo comum. Um programa de viagens já maduro, com contrato negociado e alta taxa de conformidade, acaba recebendo menos atenção do que categorias mal geridas, simplesmente porque parece "resolvido". Enquanto isso, o risco real de vazamento de custo migra para onde ninguém está olhando.

Um estudo da The Hackett Group, divulgado em 2025³, reforça esse padrão em compras indiretas de forma geral: 29% do gasto indireto roda fora de contrato nas empresas pesquisadas. Organizações com processo maduro de compras reduzem esse número para cerca de 5%, contra 10% nas que ainda não estruturaram governança, diferença que se traduz direto em economia perdida.

O que os números do Brasil mostram sobre esse crescimento sem controle

No Brasil, o setor de viagens corporativas segue em expansão acelerada, o que torna a discussão sobre governança ainda mais urgente. Dados da Abracorp mostram que o mercado faturou R$ 7,18 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 14,77% sobre o mesmo período de 2025⁴, e que o ritmo não desacelerou: julho sozinho somou R$ 1,26 bilhão em faturamento das TMCs associadas⁵. A entidade projeta encerrar o ano próximo de R$ 14 bilhões⁵.

O transporte aéreo respondeu por 59,5% da receita do semestre, R$ 4,27 bilhões, mas foi a hotelaria que cresceu mais rápido: 23,03% no período, chegando a R$ 2,12 bilhões e ampliando sua participação para 29,5% do total.

Crescimento nesse ritmo é boa notícia para o setor, mas também um alerta para quem compra essas viagens. Categoria que deve fechar o ano perto de R$ 14 bilhões sem revisão proporcional de política, contrato e alçada de aprovação tende a acumular exatamente o tipo de gasto sem oversight que a Efficio mediu em escala global.

O preço de tratar o indireto como secundário

O custo de ignorar compras indiretas não aparece em uma única linha do balanço, e talvez seja esse o motivo de ele ser tão persistente. Ele se manifesta de três formas diferentes, quase sempre ao mesmo tempo.

Primeiro, na economia perdida: contratos que renovam automaticamente sem renegociação, fornecedores que nunca voltam à mesa, tarifas que sobem sem que ninguém questione. Segundo, na governança: sem dono claro da categoria, não há como responder com precisão quanto a empresa realmente gasta, com quem e sob quais condições. Terceiro, na experiência de quem depende desse processo no dia a dia: o viajante que enfrenta política inflexível numa reserva urgente, ou o gestor que aprova uma despesa sem visibilidade do impacto agregado.

Na Onfly, vejo esse terceiro ponto de forma cotidiana: a experiência de viajar a trabalho carrega o peso de decisões de governança que o viajante nem sabe que existem, e que raramente foram desenhadas pensando nele.

Da vigilância pontual à governança contínua

A saída não é um projeto único de corte de custo, é a construção de estrutura permanente. O relatório da Efficio recomenda três frentes que se aplicam bem a qualquer categoria indireta, incluindo viagem: dono definido para cada categoria, visibilidade centralizada dos dados de gasto e um grupo de trabalho multifuncional que reúna compras, finanças e a área que efetivamente usa o serviço.

Vale também mudar o critério de sucesso. Medir só a economia negociada esconde parte do valor real. Uma abordagem de custo total de propriedade, que considera manutenção, exceções e desgaste operacional ao longo do contrato, costuma revelar um quadro mais fiel do que a categoria de fato custa para a empresa. (Sugestão de linkagem interna: um artigo anterior da Procurement Digital sobre TCO ou sobre maturidade de categoria em compras indiretas encaixaria bem aqui, ajustar para o link real na hora da publicação.)

A pergunta que fica para o próximo ciclo de orçamento

Antes de aprovar o próximo orçamento de compras indiretas, vale uma pergunta simples: qual categoria está "resolvida" apenas porque ninguém a revisita há tempo suficiente? A resposta raramente é confortável, mas é o ponto de partida mais honesto para transformar spend indireto de risco silencioso em vantagem de gestão.

Referências

  1. Efficio. The illusion of control in indirect spend (2026). Disponível em: https://www.efficioconsulting.com/en-gb/resources/reports/the-illusion-of-control-in-indirect-spend/ (achado citado via CPOstrategy: https://cpostrategy.media/blog/2026/03/05/indirect-spend-the-hidden-risk-every-cpo-should-be-watching/)
  2. Deloitte. 2025 Global Chief Procurement Officer Survey (2025). Disponível em: https://www.deloitte.com/us/en/services/consulting/articles/2025-global-chief-procurement-officer-survey.html
  3. The Hackett Group. Digital World Class® Procurement research (2025). Disponível em: https://www.thehackettgroup.com/the-hackett-group-digital-world-class-procurement-teams-achieve-2-6x-higher-roi/
  4. Abracorp, dados do 1º semestre de 2026 via Mercado & Eventos. Viagens corporativas movimentam R$ 7,18 bilhões e crescem 14,8% no Brasil em 2026 (2026). Disponível em: https://www.mercadoeeventos.com.br/noticias/turismo-em-dados/viagens-corporativas-movimentam-r-718-bilhoes-e-crescem-148-no-brasil-em-2026/
  5. Abracorp via Panrotas. Faturamento das TMCs Abracorp avança em julho e chega a R$ 1,26 bilhão (2026). Disponível em: https://www.panrotas.com.br/viagens-corporativas/tmcs/2026/08/faturamento-das-tmcs-abracorp-avanca-em-julho-e-chega-a-r-126-bilhao_231208.html
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