Resumo: Viagem corporativa cresce em volume e faturamento, mas pesquisas recentes mostram que a experiência do viajante corporativo piora à medida que as políticas ficam mais rígidas. Entender essa distância é tarefa de quem desenha o processo, não só de quem paga a fatura.
Sumário
- O contraste que os números de 2026 escondem
- Políticas mais rígidas, compliance que não acompanha
- O problema não é falta de regra, é desenho de experiência
- O que a confiança em queda do setor revela sobre o viajante
- O Brasil também sente esse descompasso
- O que muda quando a experiência vira critério de desenho
Introdução
A experiência do viajante corporativo costuma ser medida pelo que aparece na fatura: preço de passagem, diária de hotel, taxa de cancelamento. É uma leitura incompleta. Enquanto o volume de viagens de negócios segue crescendo globalmente, pesquisas recentes mostram um sinal de alerta na direção oposta: a experiência de quem viaja a trabalho está ficando mais difícil, não mais simples, mesmo com mais tecnologia e mais dinheiro investido no processo.
O contraste que os números de 2026 escondem
O setor de viagens corporativas segue em expansão. No Brasil, dados da Abracorp mostram um mercado aquecido, como este texto detalha mais adiante. No cenário global, a Global Business Travel Association (GBTA) confirma a mesma tendência de continuidade, mas com uma ressalva importante: o otimismo do setor caiu de 59% em janeiro de 2026 para 41% em abril do mesmo ano², enquanto o pessimismo quase triplicou, de 9% para 24% no mesmo período.
Isso significa que a viagem continua acontecendo, só que com menos confiança, mais custo percebido e mais complexidade operacional. Entre os respondentes da pesquisa, a preocupação com a acessibilidade financeira da viagem corporativa subiu de 70% para 82% em três meses, e a preocupação com a segurança do funcionário em viagem foi de 56% para 67% no mesmo intervalo.
Crescer em volume não é o mesmo que crescer em qualidade de experiência. Os dois indicadores podem, e estão, se movendo em direções opostas ao mesmo tempo.
Políticas mais rígidas, compliance que não acompanha
Um estudo conduzido em parceria entre a ALTOUR e a GBTA, divulgado em 2026¹, expõe a raiz prática desse descompasso. Nas empresas pesquisadas, 32% dos gestores de viagem afirmam que a política corporativa está mais rígida do que há três anos, contra apenas 5% que dizem o oposto. O resultado, no entanto, não é mais conformidade: é mais atrito.
O motivo aparece nos próprios números. Mais da metade das políticas de viagem analisadas (51%) já passa de dez páginas, e 24% ultrapassam vinte páginas. Ao mesmo tempo, a pesquisa cita dado de comportamento humano: a capacidade média de atenção contínua em uma única tarefa caiu para cerca de 47 segundos. Ninguém lê um documento de vinte páginas antes de reservar uma passagem em cima da hora.
O efeito prático é direto: 32% dos funcionários que descumprem a política dizem simplesmente não tê-la lido ou entendido. Mesmo com 87% das empresas exigindo uso de ferramenta de reserva homologada, 35% ainda apontam a reserva fora do canal aprovado como o principal problema de conformidade, e 28% citam reservas de hotel fora da política como desafio recorrente.
O problema não é falta de regra, é desenho de experiência
O estudo é direto ao afirmar que isso não é um problema de disciplina, é um problema de desenho. O viajante não ignora a política por má-fé, ele escolhe o caminho mais conveniente quando o caminho aprovado é mais lento, mais confuso ou mais limitado do que a alternativa.
Soma-se outro dado revelador: apenas 13% das políticas endereçam acessibilidade de forma consistente, e só 19% oferecem orientação clara para viajantes com necessidades diversas. Ou seja, o mesmo processo que fica mais rígido em custo e risco segue frágil justamente na dimensão mais humana da experiência.
A saída identificada pelos próprios pesquisadores não é escrever políticas ainda mais detalhadas, é redesenhar a forma de entregá-las: um documento completo para governança, uma versão simplificada de uma página para o dia a dia, e orientação específica embutida no próprio fluxo de reserva e despesa. Não à toa, 64% dos gestores de viagem já dizem valorizar explicações em vídeo geradas por IA para comunicar política de forma mais clara.
O que a confiança em queda do setor revela sobre o viajante
A queda de confiança medida pela GBTA² não é um dado abstrato de mercado, ela se traduz em decisão prática dentro das empresas. Mais da metade dos compradores de viagem corporativa (56%) já mudou sua estratégia de reuniões e eventos nos últimos três meses, incluindo cancelamento de eventos (24%) e redução de participação de colaboradores (24%).
Ao mesmo tempo, sete em cada dez compradores (70%) reconhecem que a função de gestão de viagens se torna mais importante justamente em período de disrupção, com responsabilidade cada vez mais próxima da liderança e da gestão de risco da empresa. A área que antes era vista como operacional está sendo puxada para dentro da conversa estratégica, ainda que sem o reforço de equipe proporcional a essa nova responsabilidade.
O Brasil também sente esse descompasso
No Brasil, o mercado de viagens corporativas segue em ritmo forte. Dados da Abracorp, divulgados em 2026 e reportados pelo Mercado & Eventos³, mostram faturamento de R$ 7,18 bilhões no primeiro semestre do ano, alta de 14,77% sobre igual período de 2025. O transporte aéreo respondeu por 59,5% dessa receita, e a hotelaria foi o segmento que mais cresceu, avanço de 23,03% no período, ampliando sua participação para 29,5% do total.
Esse ritmo de expansão, combinado ao cenário internacional de política mais rígida e confiança em queda, sugere que o mesmo descompasso identificado pela ALTOUR e pela GBTA tende a aparecer também por aqui: mais volume de viagem sendo gerido por processos que não foram redesenhados na mesma velocidade em que o volume cresceu.
Na Onfly, vejo esse contraste de perto: o crescimento do número de viagens de trabalho não vem acompanhado, na mesma proporção, de um redesenho de como a política chega até quem está no aeroporto tentando resolver um imprevisto em minutos.
O que muda quando a experiência vira critério de desenho
O convite que os dados de 2026 deixam para quem gerencia viagem corporativa é simples de enunciar e difícil de executar: parar de medir sucesso só pela redução de custo ou pelo rigor da política, e passar a medir também pela distância entre o que a política pede e o que o viajante consegue cumprir sem fricção. Essa distância, quando ignorada, não desaparece, ela só migra para o lugar onde ninguém está olhando.
Referências
- ALTOUR e Global Business Travel Association (GBTA). State of Corporate Travel Policies research (2026). Disponível em: https://altour.com/corporate-travel-policies-are-getting-stricter-so-why-isnt-compliance-improving/
- Global Business Travel Association (GBTA). Global Business Travel Continues but Confidence Drops Sharply as Conflict, Costs and Complexity Reshape the 2026 Outlook, pesquisa de abril de 2026. Disponível em: https://gbta.org/global-business-travel-continues-but-confidence-drops-sharply-as-conflict-costs-and-complexity-reshape-the-2026-outlook/
- Abracorp, dados do 1º semestre de 2026 via Mercado & Eventos. Viagens corporativas movimentam R$ 7,18 bilhões e crescem 14,8% no Brasil em 2026 (2026). Disponível em: https://www.mercadoeeventos.com.br/noticias/turismo-em-dados/viagens-corporativas-movimentam-r-718-bilhoes-e-crescem-148-no-brasil-em-2026/
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